sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
o homem que juntou os fios
Muitos chamam-lhe o “pai da rádio” e têm toda a razão. José Tomé dos Anjos tinha 34 anos quando o António Pereira começou a propor-lhe que fizessem uma rádio em Castro Verde. “Ele foi sempre o mais inquieto com esta ideia”, conta Tomé, que lembra o facto de nada ter sido planeado – “Foi tudo espontâneo”, assegura.
Passados 15 anos a Rádio Castrense está implantada no terreno. Cresceu, afirmou-se e nada é comparável a esses tempos de um velho gira discos e um microfone, no sótão da residência do José Tomé. Ele próprio, mais maduro e mais velho, quase a completar meio século de vida.
Tudo começou quando o jovem técnico se ofereceu para construir um emissor artesanal. António Pereira comprou as peças em Lisboa e não demorou muito que o equipamento improvisado estivesse pronto a emitir. “A primeira coisa que fizemos foi tentar perceber se as pessoas de Castro queriam ter uma rádio”, afirma José Tomé.
Assim se explica o apelo feito em directo, pela voz do “surpreendido” Joaquim Rosa, que leu o curto comunicado a mobilizar mais interessados no projecto.
No dia seguinte, o sótão encheu-se! A maior parte dos que apareceram deram corpo à CORTIÇOL alguns meses depois. E ficaram até hoje. José Tomé confessa que sempre pensou que aquilo “era uma brincadeira” mas a verdade é que, uma semana depois, percebeu que não era bem assim: “Não demorou muito tempo para o ICP – Instituto das Comunicações de Portugal vir bater-me à porta, a pedir responsabilidades”, lembra.
Seja como for, Tomé está convencido que quem impulsionou verdadeiramente a rádio foram as pessoas de Castro Verde. “Agarraram muito bem a ideia e acarinharam-na com toda a sua força. A rádio tornou-se uma coisa muito querida para os castrenses”, afirma.
Tanto que o primeiro emissor “a sério” foi comprado com o dinheiro de muitos apoios concedidos pela população. Daí para cá a história não parou! A nova telefonia mudou do sótão para a oficina do Tomé e da oficina para os antigos estaleiros da obra do Bairro da Coophecave, entretanto adaptados para o efeito.
A rádio era um corrupio de gente! Jovens com “braçadas” de discos e a cabeça a fervilhar para imitar os ídolos da Comercial. Menos jovens a lerem notícias recortadas dos jornais. Programas de debate, discos pedidos e os primeiros passos do “Património” marcavam uma grelha com duração entre as seis da tarde e a meia-noite.
Até que Cavaco Silva quis pôr em ordem as rádios piratas e mandou parar todas as emissões na véspera de Natal de 1988. A Rádio Castrense organizou nesse dia uma grande emissão ao vivo, na Escola Secundária de Castro Verde. “À meia-noite fui eu que anunciei o fecho e custou-me muito. Lembro-me que chorei”, confidencia José Tomé
Foi exactamente nessa emissão que, numa entrevista conduzida por José Francisco Colaço Guerreiro e Constantino Piçarra, o presidente da Câmara de Castro Verde, Fernando Caeiros, “comprometeu-se a criar novas instalações para a rádio”, caso fosse legalizada.
Foi essa a etapa seguinte. Naquela altura, “muitos disseram que seria impossível”. “Perante as exigências, eu e o Carlos Peres fomos os que lutámos mais para que a rádio avançasse para a legalização. Tivemos mais garra e convencemos os outros”, conta.
José Tomé encarregou-se de entregar o projecto em Lisboa e lembra-se que faltava pouco para o fim do prazo quando ainda estava com um cunhado, na Rank Xerox, a fotocopiar o documento.
“Foi uma alentejana que trabalhava nos serviços que nos ajudou a entregar o dossier”, lembra Tomé, sem esquecer “algumas rivalidades entre rádios” que se viviam nesse período.
“A Rádio Imagem (Serpa) e a Rádio Lagoa estavam muito implantadas e tinham muita aceitação. Curiosamente tratavam-nos com sobranceria e subestimavam-nos. A verdade é que não conseguiram legalizar-se”, observa.
A notícia da legalização chegou cedo, ainda antes do Verão. Tomé admite que consideraram natural e relembra que essa luz verde “trouxe atrás uma série de coisas que obrigou a rádio a fazer um empréstimo bancário por leasing no valor de milhares de contos”.
“Era preciso para comprar o equipamento que constava no projecto de legalização”, explica.
Tomé não dúvida que toda a equipa directiva da CORTIÇOL, proprietária da rádio, “ganhou confiança” a partir desse momento e, até hoje, “o projecto cresceu como uma bola de neve”. Perante uma realidade tão diferente, aquele que é o responsável técnico da estação não tem preconceitos em afirmar que a Castrense “ainda não desempenha o papel que esperava”, embora vinque que aceita e gosta daquilo que se faz.
No fundo, o que José Tomé defende é uma rádio “mais ligada às coisas de Castro”, seja as pessoas, as instituições ou as actividades económicas.
“Sem prejuízo da direcção global que hoje tem, penso que deveria ter uma componente mais virada para as coisas do concelho”, acentua, defendendo a emissão de um retrato “mais aturado da vida real e das dificuldades”, em detrimento de tanta atenção dada a determinadas matérias.
Director da área técnica da rádio, José Tomé julga que este sector “está à altura de corresponder às exigências actuais”, mas reconhece que talvez fosse importante reforçar a potência da emissão, “para fazê-la chegar com muito mais qualidade a casa das pessoas”.
Este projecto está dependente do ICP, que recentemente deu luz verde ao surgimento de novas estações em Ourique, Aljustrel e Mértola. Uma nova realidade que não preocupa o “criador” da Rádio Castrense. “A única forma de reagir é fazer melhor e ir ao encontro das pessoas com qualidade. Temos alguma vantagem porque já cá estamos, criámos o nosso espaço e esse é um percurso que os outros terão que fazer”, refere.
Janeiro 2002
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
mestre zé adelino
Tinha 14 anos e o pai quis que fosse barbeiro. A ajudar à sina, o seu tio Álvaro Freire fez gosto em ensinar-lhe o ofício. Assim foi! José Adelino perdeu os tempos da mocidade em troca de uma profissão para o resto da vida. Com uma bata muito branca, depressa aprendeu as artes do cortar o cabelo e a barba. Um dia, prestes a partir, o tio chamou-o ao leito da doença e pediu-lhe para que ficasse dono da barbearia. Não houve maneira de dizer não!
Estavam em 1937 e havia ecos das bombas de Espanha. Os tempos eram muito diferentes em Castro Verde e em todo o lado. Barba e cabelo custavam 18 tostões e a cadeira não chegava para tantos fregueses. “Trabalhava das sete da manhã à meia-noite. Sempre sem parar. Sempre com gente à espera”.
O tempo era um caminho estreito. Os ordenados fracos e o trabalho escasso. Salazar crescia no poder e dava força a uma ditadura implacável, obrigando o povo a viver numa terrível miséria.
Quando o mestre Zé Adelino decidiu aumentar o valor do trabalho para dois escudos (hoje um cêntimo!), os protestos emergiram sem piedade – “Não tem consciência nenhuma”, praguejavam entre dentes os clientes da vila inteira.
Em 1956, com quase 20 anos de ofício, a barbearia mudou para outro ponto da Rua Nova, mesmo ao lado da papelaria do Galrito, perto do Nicola e a dois passos da praça maior. O negócio continuava a ser remediado, apesar da concorrência. A mulher do Zé Adelino chegava a lavar 100 toalhas por semana, para ele dar uso na barbearia. Era tanta a clientela que, nesse tempo, Castro tinha nove barbearias de portas abertas.
Passaram-se os anos. Para ajudar à arte do corte e de escanhoar, o barbeiro começou a ajeitar-se com os relógios. Sem fregueses nas cadeiras, sentava-se na pequena mesa encostada à estreita janela virada para a grande loja do tio Albano. A perspicácia ajudava-o a anunciar pequenos e sucessivos milagres. Mas um dia, por causa dos olhos cansados, os médicos proibiram-no de concertar as misteriosas máquinas do tempo.
A mesa dos relógios passou a ser um tabuleiro para eternos jogos de sueca, com os mesmos velhos de sempre, enredados entre calendários de mulheres com mamas generosas e edições intermináveis do “Correio da Manhã”. Gente de Castro, contadora de histórias e feitos e mágoas. Até de segredos!
Nisso da conversa, o mestre Zé Adelino era um criador notável. Sempre a soltar uma frase afiada para lembrar um episódio ou um feito. Sempre pronto para resgatar da sua imaginação as frescas pinturas que ninguém mais havia visto.
Com a barbearia e a vida em contra-relógio, Zé Adelino lamentava com nostalgia a distância dos dias completos. Esse tempo em que os jovens “ainda não usavam o cabelo grande para imitar as mulheres” e a moda das gillettes não tinha chegado a casa de ninguém.
Inconformado e sem a ilusão dos relógios, mesmo perto dos 80, o mestre ainda se divertia como alquimista de surpreendentes “mésinhas” com ervas do campo. Ficou célebre a que preparou para a dor dos dentes. Um milagre inventado que sabia negociar com habilidade prodigiosa: “Deu três anos de trabalho e de estudo. Não imagina como é eficaz! Quer levar?”, desafiava com aquele olhar maroto e franco.
Nesse tempo em que acabou o século, na rua que sobe houve muitos que começaram a descer para a eternidade. O mestre Zé Adelino também abalou um dia! E a barbearia da minha infância fechou as portas para sempre.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
que fazer com as palavras?
As crónicas do Vítor Encarnação são crónicas belas e simples, porque são genuínas e falam de coisas que tocamos e que nos tocam todos os dias. São crónicas cristalinas e transparentes e às vezes muito doces, porque descrevem o que pensamos e não sabemos dizer, ou não queremos porque não temos coragem. São palavras bordadas, às vezes com frágeis linhas da renda maternal, outras vezes com a dolorosa marca do ferro em brasa, mas quase sempre com a mesma leveza da água límpida que nos inunda os olhos. E são terrivelmente inquietantes, e raras, porque não falam das coisas comuns dos telejornais nem dos lugares mil vezes repisados pelas bocas gastas de quem se repete sem ouvir o eco dos seus próprios verbos. São apenas palavras profundas, que rimam com tempo, memória e vida, e se entrelaçam num voo pensado, riscando o céu num frágil e gracioso bailado, que imita os pássaros da Primavera quando se soltam pelos telhados e brincam livres nos mais altos ramos de laranjeiras prenhas com bolas de intenso fogo, que se esmagam contra o infinito céu azul onde todas os vocábulos se abrigam.
Aquelas expressões sabem seguir o caminho recurvado das vidas, esculpir os dias tristes de chuva e massajar a lembrança dilacerada por uma perda irrevogável. São doces porque não vilipendiam a carne e sabem glorificar o amor, quando é verdadeiro e elementar e se traduz numa madrugada de luzes riscadas na noite leve e escura e misteriosa.
As palavras do Vítor Encarnação são frágeis quando edificam homens abandonados e distantes do lugar que prometeram imaginar. Ou quando nos transmitem, com desassossego, que cada tempo desses homens consumidos pela voragem das letras calejadas, será também uma cronologia nossa, porque o grande relógio universal, incomensurável e frio, vai deixar-nos em apeadeiros onde nunca sonhámos estar. E esse é o ferro em brasa que nos fere a carne e nos desvenda com estranha limpidez o lugar onde não queremos chegar.
E tudo isto é inquietante e raro, porque é na sucessão de linhas, harmoniosamente aconchegadas, que afinal descobrimos a nossa história e identificamos os lugares da ingenuidade e do sonho, do amor e da alma, da saudade e do destino. E do tempo… de todo o tempo que molda a nossa vida, às vezes sem percebermos que a existência é apenas um risco desenhado na areia, que num instante se apaga sem sequer deixar um leve murmúrio.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
"nogueiras" de Portugal
Um estudo que avalia o desempenho escolar de jovens de 15 anos em 65 países (PISA - Programme for International Student Assessment) concluiu que os estudantes portugueses, afinal, não estão tão mal quanto isso. O referido estudo mostra que, na apertada esfera dos 33 países da OCDE, Portugal foi quem mais evoluiu na leitura, matemática e ciências. E faz notar que estes resultados só foram alcançados graças às políticas adoptadas desde 2005, altura em que Maria de Lurdes Rodrigues assumiu a pasta da Educação no primeiro Governo de José Sócrates.
Neste período não se fez pouco! Entre muitas outras coisas, a data de arranque do ano lectivo e a colocação de professores deixaram de ser anedóticos. Surgiram as aulas de Inglês em todas as escolas a partir do 1º ano. Foi distribuído um milhão de computadores a alunos e professores. Foram criadas condições para que as escolas, ao contrário do que acontecia, tenham extensão de horário com diferentes actividades até às cinco e meia da tarde. Há aulas de substituição, refeições adequadas e obrigatoriedade no ensino até aos 18 anos (12º ano). E a oferta formativa fortaleceu-se bastante na área profissional.
Perante tudo isto, Sócrates fraquejou diante do valor meramente eleitoral da política: dispensou Maria de Lurdes Rodrigues, para indisfarçável contentamento do Sindicato de Professores e do seu dirigente emblemático, Mário Nogueira
Com sarcasmo, Nogueira já desvalorizou este estudo e os seus resultados, preferindo enterrar a cabeça na areia das suas inacabáveis reivindicações. Afinal, quanto vale uma entidade internacional e independente certificar o bom trabalho da antiga ministra? O que verdadeiramente importa, para os “nogueiras” deste pobre país, é a agenda político-partidária do sindicato e a imensa fileira de interesses corporativos que preferem continuar a defender.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
antónio dos anjos
Esta é a história de um homem que se confunde com a história do seu clube de sempre. António dos Anjos, 71 anos, deu os primeiros passos como dirigente em 1953, ano da fundação do FC Castrense (Castro Verde).
Com apenas 14 anos e “muita falta de jeito para jogar à bola”, decidiu dar o seu contributo de outra forma, apoiando informalmente a secção de ciclismo que, a par do futebol, completava o curto portefólio de modalidades do novel emblema alentejano.
Apaixonado pelo Sporting, António não perdia pitada dos relatos na rádio. Seguia os feitos dos “cinco violinos” e tinha no hóquei em patins outra paixão, cimentada por ídolos como Correia dos Santos, Jesus Correia e Emídio Pinto. “Jogávamos hóquei nas ruas da vila quando não havia movimento. Fazíamos umas balizas e arranjávamos uns sticks com paus de palmeira”, recorda.
O jovem António esperou pacientemente pelos 18 anos e entrou nos corpos sociais do Castrense. Ao mesmo tempo, ajudava José Ricardo, o treinador que também foi um dos fundadores do clube. Numa terra a perder população, empobrecida e muito dependente dos grandes lavradores, o Castrense brilhava como podia. Primeiro em jogos informais e, depois, nos campeonatos organizados pelo INATEL e pela Associação de Futebol de Beja, sempre em escalões secundários.
Só a Revolução de Abril criou outros horizontes ao emblema alentejano. Como sempre, António dos Anjos esteve na primeira linha. Com o início da construção do primeiro rinque de Castro Verde, o então presidente da assembleia-geral imaginou que seria possível criar a sonhada secção de hóquei em patins. A forte influência de alguns colegas de trabalho fez o resto. “Eu tinha vários contactos com colegas que estavam na Associação de Patinagem e no Desportivo de Beja. Eles começaram a insistir comigo e eu achei que era possível”, conta.
O hóquei chegou formalmente a Castro Verde em Fevereiro de 1980. Um subsídio de 150 contos [750 euros] da Câmara Municipal ajudou a adquirir sticks, bolas e equipamentos. Quatro patins foram comprados e outros quatro emprestados pela Associação de Patinagem do Alentejo.
“Foi a partir daí que organizámos melhor as coisas. Angariámos fundos e formámos uma célebre equipa que fez bons campeonatos nos diversos escalões, competindo com Benfica e Sporting em meados dos anos 80. Até tivemos um internacional júnior”, lembra com orgulho.
Actualmente, o hóquei do “verde e negro” disputa o campeonato da 3ª divisão nacional. E tem uma equipa de jovens que parece assegurar a continuidade da secção. Essa é a confiança de António dos Anjos, pilar da modalidade em Castro Verde e dirigente histórico em todo o Alentejo. Um estatuto que já lhe garantiu a condição de sócio honorário da Federação Portuguesa de Patinagem.
Mas este currículo recheado nunca o divorciou do futebol. Aliás, quando recorda a primeira promoção do FC Castrense à 3ª divisão nacional, em 1993, o decano dos dirigentes desportivos do Baixo Alentejo não esconde uma suave emoção para lembrar que “foi um ano histórico para a vida dos castrenses”. “Especialmente para nós, que estávamos integrados nesse grupo, foi a maior alegria que tivemos”, confessa.
Publicado no "Diário de Notícias (Novembro de 2007)
domingo, 12 de dezembro de 2010
belmiro isidro caeiros
Depois da segunda grande Guerra Mundial, o país e a vila de Entradas enveredam por uma nova realidade. Os apertos provocados pela tragédia desaparecem e, mesmo com uma incontornável miséria, nota-se um novo alento, sobretudo a nível local, onde os 20 anos seguintes, de 1945 a 1965, são de notável desenvolvimento e modernização da localidade.
Este período é marcado pela afirmação da actividade da Casa do Povo mas, sobretudo, pela acção da Junta de Freguesia e de um homem que inevitavelmente está ligado a muito do que foi feito na vila nesta época. Esse homem é o professor Belmiro Isidro Caeiros.
Com formação católica e muito ligado à Igreja, Belmiro Caeiros nasceu em São Teotónio, no concelho de Odemira, e vem para Entradas como docente do ensino oficial. Na juventude frequentou o Seminário e durante a vida nunca perdeu o hábito de ir à missa todos os domingos.
Em Entradas nunca esteve ligado à Sociedade Recreativa Entradense e fazia ali breves aparições apenas para ler o jornal, mostrando-se até algo antagónico a este tipo de movimento associativo. Na óptica de Fernando Caeiros, seu filho e antigo presidente da Câmara de Castro Verde, isto deve-se em parte ao facto de julgar que estas actividades têm “um carácter excessivamente pagão e quase sempre conotado com o republicanismo”. Embora em Entradas o quadro não seja esse, o professor de São Teotónio, que por razões essencialmente de formação é “muito adverso a coisas autónomas e de livre confraternização”, vê na Sociedade “um movimento não controlado”.
Homem inteligente, culto, bem formado, salazarista convicto que, segundo Fernando Sales de Brito Palma, “compreendia bem o que era o salazarismo e acreditava no regime corporativista”, torna-se muito influente em Entradas, por via da profissão, mas também devido à sua evidente dinâmica e capacidade empreendedora.
Para muitos entradenses, a sua figura está indelevelmente associada à de alguém com um papel importantíssimo, tanto na vertente autárquica como na de professor, área onde alguns alunos o classificam como “competente e dedicado”.
Na voz do povo, Belmiro Caeiros é “um homem muito metido em todas as coisas” e, no entender do relojoeiro António Espírito Santo, tem “muito jeito para apaparicar os governantes”. É indesmentível, por exemplo, a sua influência junto de Bento Caldas, que durante muitos anos exerceu em Beja as funções de delegado do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP).
Por causa deste perfil, o professor chega à presidência da Junta de Freguesia em Novembro de 1945 e aí se mantém até Junho de 1974, já depois da Revolução dos Cravos.
Pelo meio, lidera uma vasta obra que transfigura por completo a povoação e fica marcada pelo calcetamento de todas as ruas, electrificação da vila e construção dos jardins da avenida de Nossa Senhora da Esperança e do edifício da Casa do Povo.
Estas intervenções, de um modo geral, tiveram a particularidade de modernizar mas, ao mesmo tempo, dar resposta às sucessivas crises que se apoderam dos trabalhadores rurais. Em muitas ocasiões, o avanço de obras de calcetamento acontece por administração directa da própria Junta, visando dar resposta à falta de trabalho que afecta muitas famílias. Isto começa por suceder no início dos anos 40, com os calcetamentos das ruas de Santa Bárbara e do Paço, e do Largo [hoje rua] do Arrabalde e, é importante frisá-lo, porque reforça esta argumentação, estas obras chegam a parar por altura das ceifas, quando há trabalho alternativo, sendo retomadas depois de concluída esta tarefa nos campos. (…)
[Com o 25 de Abril de 1974] Desalojado do poder que exerceu com respeitável eficácia e desenvoltura, dando a Entradas um ritmo de modernização e progresso incontestável, Belmiro Isidro Caeiros compreende até certo ponto o desfecho do regime.
“Para ele não foi a queda da ideologia mas sim a corrupção que corroeu o regime. A ideologia mantinha-se intacta”, considera Fernando Sales de Brito Palma.
Belmiro Caeiros, com 59 anos, continuou a sua vida em Entradas. Respeitado, escutado e até venerado! (…) Morreu aos 67 anos, no dia 5 de Junho de 1982. A vila homenageia a sua obra e imenso trabalho em prol do bem comum transformando a Rua da Palha na Rua Belmiro Isidro Caeiros.
Hoje é recordado pelas qualidades de professor, apesar dos métodos da época, e pela invulgaridade da sua intervenção enquanto autarca, com um currículo vasto e incontornável em qualquer levantamento histórico que se faça sobre esta freguesia.
Extracto do livro "Entradas - A Sociedade e a Vila" (2005)
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