Este país não é para mim! A expressão podia ser o nome de um filme, o título de um livro ou uma anedota contada a dois amigos que eu cá sei. Desenganem-se. O país continua a ser para mim e para quem ainda acredita nalguma coisa, mesmo que ao fundo do túnel escuro não se vislumbre um breve sinal de luminosidade. (mas tenho de fazer um parêntesis. eu acredito que é só um parêntesis). Sou um optimista compulsivo e às vezes absurdo, mas chego a desconfiar que esta coisa de chegar aos 40 deve ter um efeito perverso. Ou talvez seja o tempo que vivemos e a amargura de sentir desabar as coisas em que acreditamos. Não, não é desalento, nem sequer uma atracção pelo abismo ou pelo fundo escuro do tal túnel. É desilusão! A gente acredita, espera, insiste em crer e… de um modo quase irracional e patético a coisa aponta para um lado sempre mau e tão permanente. Como acreditar que o país ainda é para mim? Como fugir a este egoísmo que começa a ficar impregnado na alma de cada um? E de todos.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
um adeus para sempre
“Os Madredeus, que tiveram uma segunda vida a partir de 2008 com Pedro Ayres Magalhães e um novo grupo de músicos, anunciaram o fim com a edição do álbum 'Castelos na areia', marcado para segunda-feira. Em comunicado divulgado hoje, a banda explica que "Castelos na areia" é o terceiro e último álbum de originais e que completa uma trilogia iniciada em 2008 com "Metafonia" e "Nova Aurora". Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade reformaram os Madredeus em finais de 2007, depois da saída de Teresa Salgueiro, José Peixoto e Fernando Júdice de um dos projectos de maior sucesso dos anos 1990 da música portuguesa.”
Por muitos esforços que Pedro Aires Magalhães fizesse, com outras vozes e outros sons, os Madredeus morreram no dia em que Maria Teresa Salgueiro partiu. Aires Magalhães era o corpo, mas Teresa Salgueiro era a alma. Que pode fazer um corpo se a alma se esvai?
domingo, 17 de outubro de 2010
Beja: um ano
Passou um ano e pouco ou nada se nota! Justificarão alguns que um ano é pouco tempo e que a Câmara de Beja estava enredada em problemas graves: dívidas acumuladas de vários milhões de euros, escassez de projectos, ausência completa de estratégia territorial e económica, promiscuidades políticas gritantes. Não é pouca coisa, convenhamos. Mas num ano inteiro pedia-se um pouco mais à maioria socialista liderada por Jorge Pulido Valente.
Não é difícil concordar que o quadro económico herdado da gestão comunista limitou o desempenho e acabou por consumir muitas energias ao novo executivo. Isso parece mais do que provado e pode-se aceitar que o caminho ficou mais estreito.
Contudo, continuamos todos com a sensação que foram adiadas algumas medidas simples, com investimento moderado. Por exemplo, Pulido Valente disse na véspera das eleições que Beja “sempre teve um grande problema que é não ter definido uma vocação”. Não sentimos que hoje essa vocação esteja, pelo menos, esboçada e assumida. Disse ainda que era necessário “uma política concreta, com incentivos aos casais mais jovens” para residirem nas aldeias. Foi peremptório a afirmar que era necessário rever a circulação de trânsito na cidade “e o estacionamento”. Falou em 107 espaços comerciais devolutos e 230 edifícios desocupados no centro histórico, indiciando que era preciso agir para resolver esse problema.
Hoje temos a sensação que ficou por percorrer muito caminho. Como é óbvio, o mandato acaba em 2013 e o presidente da Câmara diz ter um projecto para oito anos. Mas a cidade está ansiosa e carente de sinais claros de mudança. E quando falamos da cidade, não estamos a referir-nos aos que gravitaram na órbita da candidatura à espera dos proveitos que a seguir viriam. Estamos a falar dos outros: os cidadãos de Beja que há muito aspiram a ter uma capital melhor!
[Correio Alentejo 15 Outubro]
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
o labirinto
Antigamente a feira era um labirinto pior. Eu gosto de labirintos. Por isso, fui um peregrino a apregoar que arrumar o largo ia dar cabo da feira. Não deu! Mas ainda continuo a gostar mais daquelas bordas ao cimo do serro, onde as barracas vão ficando desgovernadas, com ruas de atoalhados que quase desabam numa camioneta de presuntos. Prefiro aquela linha com vista para os campos do lado de Ourique, já depois do moinho, onde vendem galinhas, pilhas não alcalinas, braçadeiras de todos os tamanhos e esculturas em pau de azinho. Parece uma babilónia! Essa feira põe-me dentro da memória daquela feira de outrora, que era o tal labirinto desgovernado e alegre: um jogo de palavras cruzadas, com palmo e meio de lama a enterrar-nos os sapatos e barracas a tombar com o peso da água da chuva. Mas o povo voltava todos os anos. Parece que não sou só eu que gosto de labirintos!
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
os ciganos
A feira é a foz que torna Castro um imenso mar de ciganos. Como nas outras etnias, há ciganos fraternos e sérios, que respeitam quem os sabe respeitar. Mas também há aqueles ruins, que governam os espaços com o poder das quezílias e do recato que os outros assumem. Será respeito ou medo? Como no melhor manjar à nossa mesa, os ciganos são o sal que tempera as ruas de Castro nos dias da feira: se a porção for certa, a coisa corre bem; se for descomedida, pode tombar para o conflito. Num e noutro caso, os ciganos são alicerce indispensável da feira. Livres e aperaltados, começam cedo a marcar o seu território. Agora são poucos os que chegam numa carroça puxada a mula. Já têm Ford Transits que se aconchegam nas redondezas, com tendas e arraiais que têm vista para um negócio qualquer.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
as pessoas
Há pessoas que não gostam da feira. Dizem mal dos ciganos, da balbúrdia, do esterco à porta de casa, das ruas desarrumadas. Nem lhe falem de encantos e de mistérios. De histórias antigas mal contadas. Eu não sou assim: gosto muito da Feira de Castro! Acho que aquela pintura social é extraordinária. As pessoas orgulhosamente rurais a passearem-se com um traje domingueiro. Os homens do campo a marcarem encontros com o trigo que vão semear. Os moços apressados para não perderem a vez. Ciganos livres, demasiado livres! Diferença. Exotismo. Alentejanices. Mais de metade da feira é a sua elegância social, transmitida por milhares de pessoas que chegam do Algarve e do Barreiro. De Odemira. De Setúbal. De Beja. Livres e sem guardarem o mundo todo dentro de umbigos para onde só eles conseguem olhar.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
o carrossel
Tenho sempre a sensação que o carrossel está decadente. Sobretudo aquele carrossel que faz umas ondas e quer imitar uma viagem na serra do Algarve. Mas depois, vou à feira, e mal chego a Castro escuto aquele silvo distante, misturado com um cheiro de algazarra. Um moço novo, bem vestido, muito zeloso do seu mérito, não esconde o orgulho nas palavras que incitam para “mais uma corrida, mais uma viagem”. Nunca gostei muito de andar neste carrossel de ondas, com cadeiras bonitas como se fosse um jardim, cavalinhos orgulhosos, bicicletas com pedais desgovernados e aqueles alguidares que giram sem tino. Mas gosto de ouvir o apito distante. O grito do moço bem vestido. Gosto de ver as mulheres que esperam pelos filhos. Os namorados que se sentam nas cadeiras bonitas. E ouvir outra vez o moço com aquela lengalenga de sempre: “Mais uma corrida, mais uma viagem”!
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